Ó mar salgado



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Lumina - Facom/UFJF - v.2, n.2, p.151-156, jul./dez. 1999 – www.facom.ufjf.br

Ó mar salgado


Nelma Fróes*
> A exploração dos oceanos, através da navegação, teve início em torno do ano 3.500 a.c., com os babilônios navegando na costa da índia. Os vikings, aproximadamente no ano 1.000 de nossa era, alcançaram o Canadá e os Estados Unidos. Há 500 anos, Vasco da Gama, navegador português, revolucionou o comércio internacional ao descobrir uma rota marítima para a índia. Iniciava-se o período das grandes navega­ções e a exploração dos mares em escala mundial. O Brasil é desco­berto nessa época. Esse acontecimento situa-se na lógica da expan­são do comércio internacional. Através dos navegadores – e suas gran­des descobertas – o Ocidente entra no caminho da mundialização, tomando, já na contemporaneidade, rumos outros: o da globalização. Este texto propõe um exercício louco, como algumas naus o foram, e ainda o são: estabelecer conexões – fragmentárias, porque iniciais – entre Cabral, sua descoberta do Brasil, e a navegação no ciberespaço.
Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal1,


diz Fernando Pessoa, poeta das várias faces. E do mar. Nestes tempos de heroificação do Descobrimento do Brasil, do renascimento do imaginário do mar, seus monstros, seus mapas inconclusos, seus limites desconhecidos, suas rotas e da prática da pirataria, ressurge outro oceano, este puramente virtual, porque tão perto e tão longe. Nele tudo se acessa, tudo se conecta, vai-se a qualquer lugar. Partir ou chegar são nós simultâneos. Marinheiro só, quem te ensinou a navegar nesta rede de abundância sem cor (ainda que Virilio a queira cinza)? Sem velas – porque sem vento – mais veloz – porque mais ágil que um tufão – tem um mouse tornado seu timão, uma teia fincada em algum horizonte, a luneta tornada tela, os números transformados em paisagem e bússola, formando uma nova língua – gigante caos.

Navio máquina, movido a bits. Hackers excêntricos, à cata de tesouros escondidos em incontáveis nós atrelados aos fios de Ariadne. Simulação passa a ser a senha de entrada no novo mundo. Um outro olhar, para um outro mar. Navigare necesse; vivere non est necesse 2. Mais do que nunca. Steven Johnson decreta que o computador é a única máquina em que o homem gosta de estar. Se navegar era, em 1.500, missão imperial de con­quista, e forma concreta, através do ato da experimentação, de colo­car a prova do mundo tal como ele é, e, não mais, como obra construída por Deus, hoje, a mesma palavra navegação foi a esco­lhida – por acaso ou pura analogia com a astronáutica (mas o acaso existe, afinal?) – para o oceano virtual, quer dizer ato de conectar-se a diferentes computadores interligados em rede e distribuídos pelo mundo. Nas velas, agora telas, a experimentação dá lugar, no ciberespaço, ao simulacro.

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça

O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido

ou desconhecido,

Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,

A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –

Aquela náusea que o sentimento que sabe que o corpo

tem a alma,

Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas

de viagem – Sempre a opressão se infiltra

no fundo do meu coração.

(Álvaro de Campos, p. 380)

Ciberespaço, novo mundo, fenômeno, sem dono, esta náu­sea não mais inaugural e que dá lugar – conquista – a alma, e não mais ao corpo. Bons e maus selvagens, marinheiros, fincam tri­bos em terras em que o espaço é a medida, o tempo ocidental, nu­mé­rico, devastador, torna-se sintoma de velocidade e o ato de nave­gar na rede não mais se orienta por cartografias exatas, limítro-fes. As rotas são outras, ainda que também aventureiras e abundan­tes: velocidade, rede, interface serão, neste oceano virtual, a sensa­ção do arrepio, o medo do novo, as leis da sobrevivência.

As rotas do contemporâneo, como diz André Lemos, são pe­ga­josas e anárquicas. Nesta viagem, as informações (abundân­cias) são sincrônicas, maleáveis, interativas em tempo real, sendo importante resgatar o que para os latinos veio a ser uma parte indissolúvel do homem (marinheiro): virtue, na realidade, quer dizer virtude, coragem, força. Daí o virtual, e sua imponência enquanto farol dos navegantes. Nele acontece a transformação do olhar (e da cartografia): passa-se a ver o corpo, e não mais a embarcação, como máquina de sensações. Simulação, assim, é a palavra-chave da conquista do mundo. Nela, a incerteza deixa de ser temporária – como em Cabral. No mundo desregulado, o presente passa a significar só futuro, numa forma de experi­men­tação do tempo quase toda igual à dos marinheiros. Tempos entre céu e mar. Os dias se mediam, nas águas daquele início de outono dos 1.500, pelo movimento do sol e da lua. No ciberes­paço experimenta-se o tempo fabuloso de Deleuze3.

Ah, balouçado

Na sensação das ondas,

Ah, embalado

Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,

De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhuma,

De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,

Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

(Álvaro de Campos, p. 401)

Na época dos descobrimentos, dos Renascimentos, diz Adau­to Novaes, o espaço tornou-se uma pluralidade de espaços; o tempo, uma pluralidade de tempos 4. Se Cabral, em alto mar, pensava o mito do herói, com uma mão em Deus e, a outra, nas técnicas revolucionárias da navegação portuguesa, a media­ção no novo mundo cibernético será realizada também pela técnica, novo mito, novo destino (ainda que privatizado). A tec­no­logia nos fará repensar nossa humanidade; ela nos fará, constantemen-te, passar de uma humanidade a outra; somos todos monstros5.

Nos 1.500, os mapas eram construídos a partir de limites cartográficos. Destas fixações eram geradas as idéias, ordenando o universal, e, a partir da experiência vivida, o mundo era reconstituído. Hoje, a filosofia enfrenta um desafio inédito: o enquadramento do problema específico (the frame problem). Neste cenário fractal gerado em computador, a vastidão do horizonte passa a significar filtro do excesso. Náufragos em tempo real, nos resta reconfigurar o mundo a partir da seleção de nossas conexões: o excesso passa a ser o objeto instigante e traiçoeiro da civilização.

Os mapas eram as bússolas de Cabral. Por eles, ir de um lugar a outro media-se por linhas longitudinais, cardeais. Pela cartografia, a Renascença portuguesa, uma das mais férteis da Europa, ia de um lugar a outro: o sonho era o de descobrir no­vas terras, novas riquezas, dar-lhes nomes, dominá-las. No espetácu­lo real do ciberespaço, os gráficos asseguram o quanti­tativo, o subliminar escondido, mas sempre vigiado: os nós serão os sinais da trajetória, ainda que ela pareça não ter fim. O descobridor português quer, sonha, e sempre chega a um porto. O nave­gador do ciberespaço passa de um embarca­douro a outro, e a outro, e a outro, e a outro, não numa suces­são, mas agora numa sobre­posição de várias cartografias. Local, global, norte, sul, leste, oeste, o que importa não é mais a condição, ou a direção. Não importa sequer chegar. A viagem vale enquanto trajeto, conexão: olhar o mundo dentro de uma pulga de silicone 6.

E o esplendor dos mapas, caminho abstrato para

a imaginação concreta,

Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,

Tudo o que diz o que não diz,

E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!

(Álvaro de Campos, p. 386)


No espetáculo de realidade do ciberespaço, as redes transfor­mam-se em véus de tule sobre o mundo. As redes de Cabral serviam para a produção de sobrevivência no mar. No espaço virtual, elas servirão para estabelecer uma outra ecologia: permanece o sentido da pesca, e da morte iminente. Na seleção virtual, acelerada, em busca de cardumes de informação, a sobre­vi­vência estará no campo da seleção, o de impor-se um limite ao ato paciente da pesca: a sobrevivência estará na capacidade da memória. A descoberta do mundo estará relacionada, agora, à descoberta também do novo homo-sapiens. O império tão comercial quanto econômico vislum­brado por Portugal conti­nua a reger a ordem da cultura, que, subjetivada, passa a ser de ordem individual: o caminho da riqueza está na identidade indivi­dual e na capacidade do navegante em fazer download dos recursos de seu cérebro 7.

As interfaces, nossos bons selvagens, dançam, como Cabral o fez com os índios, no jogo receptivo da filtragem colaborativa. Nossos marinheiros tornam-se agentes de mediação do excesso. Os bancos de dados, que medem a transitoriedade (também e sobre­tudo o controle) das atitudes, dos gostos, das fantasias indi­vi­duais, são tesouros criptografados (sempre à mercê de piratas hackers) que guardam o outro de cada um. Os segredos, estilha­çados por mouses – neles, as chaves que nos fazem mergulhar de corpo inteiro no ciberespaço – tornam-se peças algorítmicas à dis­po­sição de invasores e-mails.



Cabral. Brasil. Revisitados quinhentos anos depois, restaram, como tudo, conexões, transitorie­dades. Temos bana­nas. Mas, sobretudo, we link, therefore, we exist 8.
Notas
* Doutoranda em Comunicação e Cultura pelo Termo Aditivo do Convênio Eco/UFRJ e Facom/UFJF.
1. PESSOA, F. In: Obra Poética. Org: Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Aguilar, 1965. ( Todas as demais citações da obra do poeta serão feitas por esta edição, indicando-se, entre parênteses, no corpo do texto, o nome do heterônimo e o número da página).

2. A frase, em latim, foi dita por Pompeu, general romano, aos marinheiros amedrontados que recusavam-se a viajar durante a guerra.

3. PELBART, P.P. (1998), p. 4: 34

4. NOVAES, A. In: Tempo e História, p. 15

5. VAZ, Paulo. Anotações do Curso Rede, Velocidade e Interface. (março,1999).

6. EHRENBERG, A. (1995), p. 275.

7. VAZ, Paulo. Anotações do curso Rede, Interface e Simulação, março/1999.

8. Paráfrase criada por Nancy Kaplan (Universidade de Nova Iorque) para a frase célebre de Descartes.
Bibliografia
AUGE, Marc. Les sens des autres. Actualité de l’antrophologie. Paris: Fayard, 1994.

BOLTANSKI, Luc. La souffrance à distance. Morale humanitaire, medias e politique. Paris: Métailié, 1993.

EHRENGERG, Alain. L’individu incertain. Paris: Calmann Lévy, 1995.

JOHNSON, Steven. Interface Culture. How New Technology transforms the way we create and communicate. New York: Harper Collins Publishers, 1997.

LANDOW, George P. (org). Teoria del hipertexto. Barcelona: Paidós, 1997.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1998.

KAPLAN, Nancy. Hipertext Now. www. Eastgate.com/people/Kaplan

NOVAES, Adauto (org.). A Descoberta do Homem e do Mundo. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

———. Tempo e História. São Paulo: Cia das Letras, 1992.



PERBART, Peter Pál. O Tempo não reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 1998.

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Trad. Maria Aliete Galhoz, Rio de Janeiro: Aguilar, 1965.

SERRES. Michel. Atlas. Paris: Juliard, 1994.

———. Gnome: les débuts de la géometrie en Grèce. www.archipress.org/episteme/episteme.htm



VAZ, Paulo. Anotações do curso Rede, Interface, Simulação. In: Doutorado em Comunicação e Cultura, Convênio Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora: março, 1999.


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